Após diversas visitas à Tapera e conversa com os líderes do centro comunitário, percebe-se que falar sobre projeto sustentável no bairro tratando-se apenas da edificação em si seria um tanto incoerente. Um bairro distante do centro, não tanto pela sua posição física, mas mais pela sua condição de acessibilidade – dificultada pelas estradas de acesso e por estar circundado por grandes extensões de terra institucionais -, também sofre com a invisibilidade, que ocorre devido ao fato de ninguém “passar” pela Tapera para chegar a lugar algum, nem haver nenhum grande atrativo para que se vá até lá. A praia é pequena e poluída, não consegue nem atender à população local; não há nenhum serviço público que atraia população de outros bairros, os moradores do bairro que tem que se deslocar aos outros bairros para suprir diversas das suas necessidades; as escolas não conseguem suprir nem a demanda local, quem dirá atrair moradores de outros bairros.
Foi inicialmente moradia de índios carijós, mas seu desaparecimento do local deu nome ao bairro (tapera significa casa abandonada). Após os índios, a ocupação começou por volta dos anos 70 na região da praia e na estrada que leva à entrada da base, no trecho entre a base e a ”rua da praia”, e era principalmente de nativos, porém a ocupação da maior parte da Tapera se deu principalmente nas últimas duas décadas, começando na parte alta e indo na direção da atual “Rua do Juca”. Na região da rua conhecida como “barreira” havia um grande monte de barro (por isso o nome do local), que foi desmanchado na sua maior parte, tendo sido muito desse barro utilizado para aterrar a parte mais baixa do bairro, que originalmente era mangue, fato que causa ainda hoje alagamentos ocasionais nessa região. A ocupação ocorrida nos últimos 20 anos já tem um caráter diferente daquela inicial, há muitas pessoas de outras regiões do estado e inclusive do país. O bairro da Tapera teve então uma consolidação recente, com uma comunidade diversa e vive em constante mudança – segundo os líderes do conselho comunitário: “toda semana tem gente entrando e tem gente saindo (de mudança)”.
Outro lado da Tapera são suas belezas naturais. O bairro tem uma grande área de mangue preservada, acidentes físicos que marcam o cenário, além de uma praia de baía, que apesar de ter águas impróprias para banho, é muito utilizada pela população e tem um cenário lindo e marcante, com duas ilhotas (das cabras e Dona Francisca) na sua frente. Devido a sua beleza, a Tapera também tem uma área com casas turísticas, de veraneio, de uma classe social mais elevada. Essa ocupação se dá numa área mais isolada do bairro, mas sua forma de implantação fecha o acesso à praia para outras pessoas, conformando, de certa maneira, uma praia privada. O bairro conta também com uma pequena população de pescadores que tem seus ranchos à beira mar. Ali também é feito o extrativismo de mariscos e similares.
É algo compatível com essa população tão diversa que procuro. Quero tirar partido da “bagunça” que acabou se formando devido a essa ocupação desordenada para projetar algo bastante humano. Também quero projetar algo que respeite o ecossistema local, agindo de forma cíclica com o mesmo.